Rafael Alonso — Sair do próprio caminho e deixar o mundo entrar
1. Fragmentos para Rafael
cuidar do tempo, isso tomará algum tempo.
como se livrar do próprio desejo se ele é um animal repetitivo?
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secar as meias, moer o pó do café, aguar a pia, cortar as unhas, tirar os sacos, lavar os pés, a sujeira da mente, o presidente. a luz do dia de hoje em algum país. aqui. os que me quiseram, os que não quiseram, a cabeça em vertigem, ligar o chuveiro, deixar escorrer, as fantasias, secar as meias
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por que os metros quadrados existentes não são suficientes?
braços estendidos, longos passos,
como olhar no relógio
os mesmos números e não pensar em nada
como se retirar da ideia de sorte
como se retirar de todas as ideias
como apenas pairar
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meu deus, quantas identidades e nenhuma
onde te interessa ir
a pessoa é uma boneca russa
o choro vem em ondas
hablas español?
desenhar um belo touro com capa vermelha
ser um belo touro
correr até o que quero
derrubar tudo que há no trajeto
dizer trajeto ao invés de caminho
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analiso uma planta baixa e digo com certeza apontando no papel, devemos ir por lá. essa é definitivamente a melhor rota.
como os antigos capitães, só que aqui na sala.
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ontem sonhei com uma planta que não cabia mais no vaso.
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está previsto que algo vai virar pó. os portões das casas, as sacadas, os prédios, as padarias, os vidros, algo vai virar pó.
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não havia tédio na idade da pedra, nem na do bronze. esse conceito só veio depois da invenção da eletricidade, da cidade, da locomotiva. antes era tudo lento. a natureza uma imagem sem foco, tudo periférico e concomitante. não há objeto, não há nem o conceito de atenção. está mais para uma espécie de sincronia. o próprio dedo do homem faz parte da paisagem, e como paisagem, ele não pensa.
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ando pela casa catando pedaços de tarefas, coisas por fazer acumuladas. falo com fantasmas. tem um livro de Ali Smith chamado Artful, em que ela fala com seu marido morto enquanto vaga pelo apartamento encontrando relíquias, memórias, destroços. ela fica triste ao notar que seu televisor 60 polegadas durou mais que o homem que amou.
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eu tenho vontade de examinar o fóssil, mas a mente está lenta como se uma gosma pesada me impedisse de digitar uma letra após a outra. a cabeça pede aos céus para que possa enxergar um palmo a frente que seja, o que seja da vontade do céu mostrar. o céu mostra luz e sombra, coisas que voam e andam, coisas brilham. coisas que ventam. o céu nunca está parado.
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sinto até vontade de escrever: a água está molhada, a garrafa está suando umas gotas de água molhada. sinto vontade de escrever como quem faz um desenho de observação, e vai tateando no escuro o melhor jeito de descrever uma garrafa, na verdade, no claro. não há segredos entre eu e a garrafa, há o mistério das escolhas mil que posso fazer para descrevê-la.
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ele olhava para a última luz do dia vinda da janela com o ar reflexivo, como quem está ausente e só a carne ocupa seu espaço na casa, que dava mesmo a sensação de quadrado. presos nos tableaux dos dias. nas suas poses. acho que tinham quatro posições principais para fazer sexo ou se posicionar na sala. talvez fossem mais de quatro.
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não tinha entendido que a cápsula que chegou em marte se chama perseverança.
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olho da janela e
a casa dos outros parece um museu sem saída de emergência
exposição permanente de coisas, algumas você não quer mais
uma velha melodia toca no fundo
era Chopin? era Nocturne
agora sei um ou outro nome de música erudita
moonlight sonata pathetique noturne
me falaram de uma rede social só de música clássica e os pelos da minha axila estão enormes
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Se há algum substituto do amor, esse substituto é a memória. Pena que eu esqueci quem disse isso.
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hoje é a ponta do dedo esquerdo que está cortada.
anoto metas para o ano: abandonar os desertos.
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tento fugir daquilo que deveria encontrar, mas ainda falta uma palavra para dar partida ao dia de hoje, que parece igual a todos. já tem obra lá fora, as plantas em fotossíntese, o dia ficou aberto e ensolarado e agora cinza. o outono está chegando.
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simone weil deu seus cadernos para um padre e pediu que ele fizesse ganhar uma forma, se tornar alguma coisa.
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escrevo perdida como uma garrafa no oceano carregando uma mensagem que ninguém leu.
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fui cutucada a noite inteira pela ideia de escrever. lembro da memória: escrever sobre o ar. e uma imagem do ar tomando alguma forma na minha cabeça.
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meu diário não é tão fiel aos acontecimentos.
2. Mais fragmentos para Rafael
Tomo o café gelado e aceito a imperfeição dos meus dias. A vida que talho como uma artista impaciente, que anseia por ver logo alguma forma.
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Antes era assim: o nada, e aí vieram as andorinhas, as fábulas e farsas e tudo que fica no entremeio. Antes de antes tinha um nadica, até que gaivotas pequeninas voaram no pátio sombrio como fósseis de luz.
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Vejo o verde das árvores cintilantes pela moldura da janela. Lembra um filme dos irmãos Lumière. A vibração das folhas ao vento lento. A respiração das árvores capturada num quadro fixo.
Mesmo o filme sendo em preto e branco, a luz dura do sol sobre as plantas parece mais real que a realidade.
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Encaro a coleção de objetos inúteis, alguns escolhidos, outros que fizeram seu caminho (misterioso) até aqui.
Continuo a observação séria ou qualquer coisa que ligue o motor. Tudo parece desorganizado, mas não é.
São figuras, corpos que - mal ou bem - se equilibram.
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Um colecionador alegava que suas coleções eram tentativas de controlar a vida. Mas não tinha considerado que são os objetos que propõem o jogo.
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Walter Benjamin escreveu que o colecionador retira a coisa de sua função.
Colecionar é um exercício de eliminar categorias práticas. Desviar o objeto do seu caminho planejado.
Como uma narração de si mesmo e uma reconfiguração do passado que hoje é desconhecido.
Os objetos colecionados se tornam uma constelação.
Também disse que colecionar é salvar algo do desaparecimento.
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O tanto de trabalho do artista que é só a pessoa sair do próprio caminho e deixar o mundo entrar.
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Folheio o dicionário de símbolos. Paro no jardim:
O jardim é o símbolo do paraíso terrestre.
Muitas coisas não sabemos, mas sabemos que Adão cultivava o jardim.
Já foi dito dos jardins da Roma antiga que eram lembranças de um paraíso perdido.
Os jardins são imagens e resumos do mundo.
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A rua segue torta e engraçada como uma ervilha. O frio secou algumas árvores, amarelou outras, mas onde vivo há sempre a garantia de algumas plantas portentosas e vibrantes que resistem. Essas árvores puxam meus olhos para fora e me fazem acreditar em algo. No que?
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Etimologias
A copa, a parte superior, espalhada, de uma árvore. Deriva do Latim cupa, “taça ou vasilha grande”, pela semelhança de forma.
E na ponta e ao longo dos ramos ou galhos temos as folhas, do Latim folium, que começou sendo usado para denominar uma parte dos vegetais e depois assumiu também o significado de “pedaço de papel para escrita”.
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Pensando no cara que me falou que não existe jeito certo nem errado de se viver, apenas bonito e feio, por isso deveríamos sempre escolher o caminho bonito.
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Estou aqui. Regando a terra vermelha, olhando pra lua. Não sei o que fazer ou digo-me que não sei o que fazer. Tenho medo de cair no lodo do esquecimento, como se eu mesma pudesse me esquecer. Ir para baixo da terra. Fico aqui para olhar, lembrar do que aconteceu e imaginar o que não sei.
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Acreditar no mundo é sucitar acontecimentos. Construir o chão para colocar o pé. Não fui eu quem disse foi Deleuze.
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Melhor não desgrudar do teclado, melhor, acima de tudo e de nada, não desgrudar do teclado, das notas e teclas, dos anos das mortes das virgens vítimas lontras e percevejos melhor não descuidar do cabelo da pele do lombo do torso do cavalo.
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Quando a gente permanece as coisas mudam de estado.
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Me lamento, choro e a montanha segue verde e indiferente.
Fantasio e fantasiar é meu ofício.
Luna Grimberg
