Marcelo Conceição — O sagrado em mim
Inicio este texto com algumas perguntas: a quem se dirigiria um texto crítico escrito para uma exposição de arte visual; qual é o seu propósito; e quem é o seu primeiro leitor?
É sabido que a grande maioria dos textos conhece, antecipadamente e em alguma medida, o seu leitor. Dito isso, revelo que o primeiro leitor desse texto é Marcelo Conceição. Ele será o primeiro leitor, o que não impede que outros o leiam posteriormente. Inclusive isso é desejável por mim e, suponho, pelo próprio Marcelo, afinal este texto tem como propósito falar sobre seu trabalho — que ele não esconde, está aí, circulando entre nós em exposições e há algum tempo. Bem, então chegamos a segunda questão: o propósito do texto. Em linhas gerais, este texto tem dois propósitos que se dividem entre dois leitores: o primeiro, Marcelo, sabemos; e o segundo, vocês. Ao Marcelo, dou evidências de que acompanho seu trabalho há alguns anos, que reconheço o seu fazer diarístico e incessante, e que percebo (com grande encantamento) sua poesia nos objetos que constrói; a vocês, demais leitores, faço apenas um convite. Como acontece em uma psicanálise — um convite a reviramentos e reconfigurações a partir de novos enunciados —, aqui faço um convite para olharem esses objetos por uma perspectiva marcada pelo seguinte enunciado do artista: “há um sagrado em mim”.
Trata-se, estou convencido, de um sagrado que não faz reza, pregação ou delírio, como tantos outros fazem ou fizeram. Portanto, não temos aqui nem religião, nem loucura. O que temos afinal? Diante desse sagrado, Marcelo parece inventar um gesto qualquer — mas não qualquer gesto —, que revela, que dá expressão, textura, materialidade, a isso que o mobiliza. Mas não é somente o caráter expressivo de seus objetos que sustenta esse convite. Sim, convenhamos, trata-se de uma experiência visual inquestionável, e este convite também se apoia no fato de que o trabalho de Marcelo Conceição está inscrito no registro da estética e do belo. Mas por que então um psicanalista escreveria um texto sobre um trabalho de inegável valor artístico? Porque antes do artista existe um autor, como alguém que assina o que faz e mostra. É o efeito de uma psicanálise, digamos assim, que um artista poderia antecipar. Ser reconhecido como artista no olhar de um outro e ocupar o imenso sistema das artes visuais são consequências (na maiorias das vezes desejáveis), efeitos periféricos de um ato nuclear, central, monolítico e inegociável. Seria esse o sagrado que move o fazer de Marcelo Conceição?
Retomo a noção de fazer e de assinatura. No caso de Marcelo, MC. Essas duas letras indicam a autoria de seus objetos - artísticos, sabemos, mas não só. Tem algo anterior aqui.
Existe uma ideia, meio gasta, que os psicanalistas adoram repetir, e que diz o seguinte: oartista precede o analista. Vou ampliar essa questão perguntando: e quem precederia o artista? Ensaiando uma resposta, diria: é o autor, que por uma espécie de imperativo, que não se sabe bem o que é, simplesmente, faz. No que ele faz, ele aprende a fazer. Bom, então, diante de algo sagrado — como sinônimo de algo inegociável, imponderável, o autor faz e aprende a fazer. Trocando em miúdos, ele sabe-fazer com isso que para ele é sagrado. Mas esse saber-fazer tem uma condição especial. Isso foi Lacan quem disse bem no final de seu ensino, mas para não precisar citá-lo à risca, de modo a não perder o ritmo deste ensaio, digo do meu jeito. Faço assim, com certa irreverência, evitando qualquer desonestidade intelectual e, ao mesmo tempo, quebrando a bolha do obscurantismo que as vezes é atribuído ao ensino de Lacan. Portanto, saber-se-virar (savoir y faire) é diferente de saber-fazer (savoir-faire). Somente uma única letra marca uma transformação. Assim como no hipotético par sagrado-segredo, que não consigo me esqui-var de pensar, no termo de Lacan é o acréscimo da letra y.
Saber-se-virar é uma expressão popular no Brasil e que indica algo do improviso. Saber-sevirar é também uma espécie de sabedoria de solução e enfrentamento de problemas, como gambiarras, que fazem uso de técnicas e materiais precários — restos sem valor, tal como um espeto de churrasquinho, uma rolha de vinho ou um botão que caiu da camisa: elementos que vemos, constantemente, nos objetos feitos por MC. Saber-se-virar é equivalente ao popular se arranjar, dar um jeitinho e/ou tirar de letra. Este último é ainda mais interessante, vejamos.
Se as demais expressões indicam alguma precariedade, ou sugerem tratar-se de algo frágil, provisório, a expressão tirar de letra, não. Por isso ela é mais adequada. Embora, visualmente, as estruturas dos objetos de MC possam nos parecer frágeis ou inconsistentes, não é disso que se trata. O termo que proponho, com algum atrevimento, retira a expressão de Lacan do pedestal e acrescenta um detalhe fundamental: a elegância. Tirar de letra está referenciada ao vocabulário do futebol, e neste, a letra é um toque de classe, de elegância, de rara habilidade. A letra pode ser o lance mais bonito, mais plástico, de uma partida, superando até mesmo o gol. Foi isso que Lacan fez com a letra ao final de seu ensino, quando a separou da mensagem, valorizando-a como uma marca, assinatura, meio fora do sentido e que, de alguma forma, tentaria escrever a relação do sujeito com o real.
Reabro a questão do sagrado, para dizer que os discursos disponíveis na cultura são suportes para que o sujeito possa elaborar, em última instância, algo sobre um certo inominável, um impossível de representar, que depois de Lacan, aprendemos a chamar de real. No caso de MC, elaborar um discurso próprio e nomeá-lo como sagrado, é o que marca alguma diferença entre o ordinário/universal e algo extraordinário/singular. Portanto, saber-se-virar (tirar de letra) com o discurso é muito diferente de dominar um fazer por competência ou expertise — tal como o eletricista, o médico ou o mecânico automotivo o fazem —, mas encontrar um modo de lidar com aquilo que nos habita. É um saber que não se ensina, não se transmite, não se replica, não serve para mais de uma pessoa, é “pessoal e intransferível”, como se diz por aí. Saber-se-virar com isso, o sagra-do, tirá-lo de letra é manejá-lo, moldá-lo, colando peça por peça, amarrando cada pedaço, “enfeitando” (como se costuma dizer no futebol). Com esse trabalho é que Marcelo parece nos ensinar, antes de revelar sua beleza e o capricho colegial do seu fazer, os pontos de apoio, de equilíbrio e sustentação de uma vida inteira.
Evitei neste texto contar sua história — permitindo assim que ele próprio o faça, à sua maneira, com habitual disponibilidade e com seu sorriso luminoso. Não contar o percurso de MC é também evitar uma espécie de fetichização de seu trajeto, embora não seja possível ignorar que o seu trabalho estaria, em alguma medida, marcado pelo o que ele viveu, nas condições que viveu. Digo isso porque se o ateliê do artista não está mais exclusivamente nas ruas, como já esteve, sua prática como garimpeiro urbano, catador, permanece cumprindo uma função valiosa dentro da sua produção artística. Segundo o próprio Marcelo, existem dois pontos cruciais que permanecem como linhas de força e que conferem rigor ao seu método, sublinho: a escassez de material; e a obrigação de encontrar uma solução escultórica imediata para eles. Em suas palavras: “se não tiver escassez, não é um trabalho meu”. Isso que MC faz por obrigação, as soluções que ele encontra com aquilo que dispõe, sem excesso, para prontar a sua peça — expressão sua, é um modo peculiar de saber-se-virar com o real.
Feitas todas essas considerações, hoje estamos aqui para testemunhar, através destes objetos, um fazer que dá conta de algo inapreensível. Um fazer restrito e irreproduzível, atravessado por aquilo que MC nos indica como sagrado e que o habita. Trata-se de um fazer único, poético e, indiscutivelmente, singular, constante e ininterrupto. Algo permitido apenas a Marcelo Conceição, que tira de letra, seu toque de classe.
André Luiz Abu-Merhy Barroso
