Eduardo Baltazar — Olho do dia
Para voltar ao céu, o deus Rá desce ao reino inferior. Fazendo do mar seu manto, atravessa o abismo em uma barca para outro mundo. Lá embaixo, onde ainda ressoa o canto das baleias, uma incontornável serpente ameaça devorá-lo. Já há muitas madrugadas lambe os beiços desta expectativa. Uma noite, com o rei finalmente na barriga, a serpente faz imperar as forças do caos. Um vazio avassalador se instaura no tempo.
O escuro é o avesso da certeza. Dissolve a linha do horizonte e as suas dicotomias. Já não se fecunda e nem se morre, não se descansa e nem se exaure. Do dia à noite, do quente ao frio, há apenas o risco. A ponte se desdobra em universo, estado transitório de possibilidades. É preciso voltar a ser criança para brincar entre o céu e o chão - como um equilibrista, experimentar um espaço pendurado.
Nele, duas árvores anciãs, desde sempre vizinhas, finalmente se estendem os braços. Dois antigos amigos se aproximam de um enlace. O que era pedra pôde ser nuvem e o que era água pôde ser ar, morrendo de medo e de vontade. Ainda que, agora, tudo seja ilha, em uma delas, um casal tira um par de cartas de tarô. Ainda sabemos que estão lá os sons do oceano. O restante da dúvida se atravessa com paixão.
Não há como desviar deste encontro, que mais se faz confronto. Não há escape ou saída da vertigem. Não bastam mais janelas. Agora, enfrentamos portais, espelhos do nosso tamanho. Alguma vibração ou magnetismo sustenta esta eterna suspensão - um sargasso do anoitecer, que nas mesmas medidas, convida e cospe. Como um pescador à beira do feitiço, queremos passar com as coisas passando.
Enfim, em um estalo crepitante, a serpente se surpreende. Não contava com a azia que palpitava logo após o engolido, a mais verdadeira queimação nas entranhas. Afinal, um deus se contorcia em seus interiores. O furor dos seus raios esculpia, forte e desesperado, uma saída. Regurgitado, Rá faz a luz nascer de novo. A terra vive, então, o seu primeiro eclipse. O olho do dia não está na cabeça, ele brota do estômago.
Foi assim que o astro rei estendeu o seu convite para que, a cada pôr do sol, quando mergulha no submundo, mergulharmos com ele. Assim, entre o dormir e o acordar, encontramos monstros das profundezas, imagens de vida e morte, precipícios e barcas para cruzá-los. O mar é abissal como o inconsciente, zona informe em que se dão todas as transformações.
Remamos, então, à raíz da força imaginante, àquilo que se oculta diante do que se mostra. Nadamos ao destino essencial - o fundo da matéria, a sensação atrás do pensamento. Da praia, da ilha ou do banco de areia, fotografamos o segredo. Pintamos seu perfume. Quando a noite se anuncia, o horizonte toma o céu inteiro.
![Eduardo Baltazar A visão turva da aroeira #2, 2026 Óleo e cera de abelha sobre linho [Oil and beeswax on linen] 29 x 23 cm [11 3/8 x 9 in]](https://static-assets.artlogic.net/w_800,h_800,c_limit,f_auto,fl_lossy,q_auto/artlogicstorage/galeriaathena/images/view/c2f8c13b224bf18967fc6f4cb3ababbaj/galeriaathena-eduardo-baltazar-a-vis-o-turva-da-aroeira-2-2026.jpg)