Apresentação

 “há neste murmúrio uma saudade,

a vontade louca de voltar,
ser como era antes, mesmo por instantes,
e depois morrer pra não chorar”
Elis Regina

 

Tudo que desejo vibra na garganta. À noite, ensejo mundos férteis, germino as possibilidades, suspendo o tempo com as próprias mãos. Por vezes, me falta coragem. Procuro uma sombra e me aninho na concha, mas, ainda dentro, o som baixo continua a pulsar. A crepitação insiste, o tremor se repete, o silêncio é barulhento demais. Do calor e do segredo, transborda um murmúrio.
 
Desabrochada, planto raízes, ponho ovos, estendo os braços ao fundo do poço. Negocio com a penumbra   espero que, mais tarde, ela volte. Aos poucos, me amostro às leves frestas do sol. Abro a boca em que guardo meu colar de pérolas. Esparramo as penas de pavão furta-cor, os espinhos de ouriço e as escamas de tatu. Balanço os tentáculos em câmera lenta e observo o flutuar.
 
Como me recebe este mundo de fora? Amortece suas paredes, esquenta as suas luzes, desdobra-se úmido e uterino. Assume comigo o risco da fertilidade. Desloco o íntimo em outros seres e formas. Faço do intervalo um novo ambiente  morno, lento, vivo   e nele gesto a transformação. Misturo mente e instinto para trocar de pele e enfim, largo a última carcaça para trás. 
 
A escuridão acarinha as sobras, invoca uma morosa valsa, parece querer ficar.  Reviro seus contornos em novos começos, pequenas bolhas de esperança, pústulas, bolsas, cestas. Componho crisálidas para todos os ciclos. Delas eclodo e à elas retorno. Volta e meia, preciso nascer de mim mesma. 
 
Bia Coslovsky
 
Vistas da exposição
Obras