Apresentação
feroz. a mulher aos berros. foi assim que dei à luz. minha mãe pariu seus filhos em silêncio. eu precisava gritar. armada com sua espata, a palmeira protege a prole. sentada à sua própria sombra, a planta se desenha. “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. são muitas as canções de exílio. como parir em outra língua se não na minha língua mãe? fiado alguns anos antes e a muitas mãos, um fio de algodão atravessa o oceano. um colar de côcos adorna o edifício. quenga côco loco. toda floresta é um arquivo. como contas atravessando o fio, um cacho de frutos pendentes. a voz da mãe ressoa do umbigo da criança até minha garganta. um colar é também um cordão umbilical e nos conecta às entidades mágicas de quem somos filhas. somos todas filhas. aprender a tocar violão com cordas de buriti. mediar a melodia entre o corpo e a floresta. todas as cordas vocais guardadas no meu pescoço. ali, dançam poderes, controles, silêncios, sapos, o inefável. não muita diferença entre quem corta uma cabeça e quem corta um tronco. somos todas membros. aquecer a voz. trabalhar a terra no uso das suas ferramentas. infiltrar as cores sobre o papel. brilhar as memórias - da prata e fotográfica. o colar mais antigo produzido por humanas data 77 mil anos. chita desfiada balanceia. mover canoas para levar e buscar colares e casamentos. cantar. à margem, a palmeira informa a escala da paisagem. apenas os coqueiros se salvaram no pasto desmatado. voraz. nutrir os fios do cabelo. a queda de cabelo. cozinhar o alimento. curar. fabricar remédios e tinturas. somos todas fibras. fazer a sombra do quintal da minha casa. construir uma casa. ser a casa construída. é noite. mata acordada. por dentro, gente fazendo cócegas e a floresta gargalha. som de pétala, de folha e tombo de fruto. gestar pesa e é líquido. mãe das águas. quantas árvores precisamos plantar antes que esse mundo despenque? babaçu dos babaçuais. azul. capaz. na ordem do possível. um colosso de carbono por vir. todos os dias distribuir sementes. é das mulheres semear. mera existência inadiável. ouvir. tremeluzir. foi quando me senti árvore pela primeira vez. colérica. será possível se arrepender: de não morar no mato. de não ter mais filhas. do filho. a vida vegetal vegeta. somos a maior biomassa. em coro. oitava comigo. nativa da terra, língua nativa. uma dor muito grande. uma dor maior. todas muito magnéticas. alvorada, pálpebra balbucia. chove, som de pássaro, pouso da folha no galho. rio acima ela desliza, brilhante. somos todas frutífera vocifera.
 
Raquel Versieux
Bruxelas, 23 de janeiro de 2026
 
Escrito por pessoa humana sem uso de I.A.
Vistas da exposição
Obras