Jonas Arrabal — Um fantasma é aquilo que fica
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Apresentação
O que somos do que resta?
O líquido negro escorre entre os fragmentos brancos, preenche os vãos, solidifica. Betume derretido despejado sobre conchas trituradas pausa em pleno movimento. Jonas Arrabal captura não só os vestígios do tempo e do mar, mas o que não deixa vestígio – o acontecimento, o calor, a mistura, o fantasma – que corre, fino, logo abaixo do tangível, do perceptível.
Âmbar gris é uma substância rara excretada por baleias, encontrada boiando ou nas profundezas, avaliada em ouro. Na série, um impressionante betume negro evoca essa riqueza ambígua das vísceras e dos vestígios ao deslizar entre as cracas, conchas e areia pela superfície translúcida da vida. Jonas Arrabal cria uma espécie de alquimia do refugo. "Da água surge essa riqueza", diz ele, "matéria fóssil que existe há milhares de anos, anterior à existência de qualquer civilização". O que está ali, flutuando? Sendo preservado ou sufocado?
Penso no título que Jonas trouxe para unir as obras: Um fantasma é aquilo que fica. É um título que traz uma história, um movimento. Fantasma veio do grego já com a ideia de aparição: de um espectro ou alma de outro mundo – phantázein – que, por sua vez, veio de phaínein, "mostrar", que se desdobrou de phos, "luz", algo que nos mostra algo para ser visto, joga luz. Fábula, fantasia, fenômeno, também saem desse mesmo ninho do fantasma, nessa linha litorânea, entre o que existe e o que não existe (mais). Fico pensando se o que Jonas nos mostra são fantasmas, ou nós somos os fantasmas em outra ordem do tempo: o que somos do que resta?
Os trabalhos de Jonas operam no registro espectral do litoral, são a marca que resta quando o efeito se esgota, "a borda no furo do saber", como disse Lacan. Jonas escreve entre o movimento e a marca, nesse espaço entre o que se inscreve tátil no vidro e o que não deixa marca, mas deixa presença. Entre a terra onde nos firmamos e a insistência líquida do mar.
Âmbar gris - com o pó do tempo e da matéria fóssil abertos sobre o vidro - me lembram as lâminas usadas em microscópios, para investigar o invisível que atravessa tudo, essas lâminas ampliadas a uma escala do nosso corpo, visível a olho nu, entendido com a calma da contemplação. Seu desdobramento, Nami-nokori, atravessa o lúdico processo de guardar as ondas sobre o papel – tão firme e tão frágil – e flutua no quadro preso com alfinetes – igual às borboletas coletadas. Nami-nokori é uma expressão japonesa que une a imagem física do mar recuando com a sensação melancólica de algo que se foi, mas deixou rastros. Um fantasma é aquilo que fica. A marca da ausência. Refugos esculpidos pelo tempo, pela ação da erosão do mar e dos ventos. Objetos pelos quais não há o controle da manipulação humana. Sua forma é a marca da fatalidade. O artista observa e traduz – traduzir é construção. Desloca. O que fica quando a água se vai? Sal.
Se phaínein é o gesto de jogar luz, de fazer aparecer, o que aparece quando as fundações ficam à mostra? Em Esboço de uma arquitetura colonial, Jonas não ergue edifício – faz aparecer o esqueleto do que foi triturado para construí-lo. Sambaquis são montes artificiais de conchas, esqueletos, utensílios. Tãba (conchas) + ki (amontoado). Depósitos de tempo acumulados por povos que habitaram o litoral brasileiro há aproximadamente 5000 anos. Desde o século XVII foram arruinados para obtenção de cal usado em construções coloniais – principalmente engenhos de açúcar. O esboço aqui é recusa. Jonas não completa a edificação colonial. Jonas empilha cimento branco, conchas e cracas em cilindros de aço inox. A forma vertical sugere coluna, estrutura, fundação – mas é esboço, nunca edificação completa. Ruína antes mesmo de ser construída. Deixa-a como fantasma: aparição da destruição, mas sem ser monumento. Ruína. Aqui, esboçar para mostrar (phaínein) o que sustenta: o trituramento de camadas milenares de memória indígena.
Tem um trecho de um texto do Walter Benjamin ao qual eu constantemente volto: "A estética das ruínas, do fragmento, é uma estética da construção, uma atividade combinatória que quer se exibir como tal. As ruínas, os fragmentos, são a matéria nobre para a criação". O que jaz em ruínas, o fragmento significativo, o estilhaço. Pedaços de diferentes domínios que formam novos sentidos. As ruínas não são passado, são presente, são agora.
O coral branqueado não é o recife que foi – é seu esqueleto. Os Vertebrais são dois trabalhos em bronze apoiados em restos de coral: estruturas marinhas que preservam a vida de diversos seres. "O litoral é aquilo que instaura um domínio inteiro como formando outra fronteira", escreve Lacan. Corais: organismos compostos por esqueleto calcário e pequenos pólipos que vivem agrupados, criando ao longo do tempo a topografia dos recifes. Jonas me cita um estudo sobre o branqueamento dos corais relacionado a mudanças ambientais – incidência de luz, poluição, aumento da temperatura. A elevação do CO2 na atmosfera produz reações químicas que acidificam a água e afetam as zooxantelas – algas que vivem em simbiose com os corais. Sem elas, o coral perde sua principal forma de nutrição. Branqueia. Morre. Aqui, vira pedestal para bronze. A vértebra em bronze repousa sobre o esqueleto calcário do coral morto. Coluna sobre coluna. Estrutura sobre estrutura. O que sustenta o quê?
Em Das devastações, betume e sal dentro de caixas de aço inox. "Pressupõe um acidente", diz Jonas. Óleo que brota e encapsula pedras de sal. Não é água, não mistura, prende. Eco da devastação histórica dos sambaquis agora em forma de derramamento de óleo. O vocabulário contemporâneo das catástrofes ambientais – praias cobertas de petróleo, animais mortos, ecossistemas destruídos.
Jacques Derrida, em História da mentira, escreve que o fabuloso e o fantasmático compartilham um traço: não pertencem nem ao verdadeiro nem ao falso, assemelham-se antes a uma espécie irredutível do simulacro ou da virtualidade. Nem presença plena, nem ausência total. O fantasma é o que permanece sem corpo, o que age sem substância. Os trabalhos de Arrabal operam nesse registro espectral. As conchas encapsuladas no betume não estão vivas nem mortas – estão suspensas, congeladas em um tempo que não passa. O sal que mancha o cimento não é a água que evaporou – é seu rastro, sua sombra química. Tudo aqui habita essa zona entre: o vestígio que não comprova nada, mas insiste em aparecer.
Um fantasma não assombra – testemunha. Os materiais de Jonas carregam tempos sobrepostos. Não há nostalgia nem lamento. Há estranhamento e luz. A sensação de que, simultaneamente, pertencemos e não pertencemos ao mesmo tempo dos sambaquis, das conchas, dos fósseis, dos corais. "Presume uma existência anterior à nossa e que, provavelmente, existirá posterior à nossa existência também", diz Jonas. O sal que fez o corpo boiar quando ainda havia corpo. Agora, na ausência da pele, escorre. O mar recua e carrega consigo algo de nós. Fica o sal na superfície do cimento, a concha encaixada na argamassa, o óleo sobre pedra. O fantasma não é o que partiu – é o que permanece sem sabermos que permaneceu. Assim é empurrada a frágil roda do mundo. Ecoa a pergunta: o que somos do que resta?
Omar Salomão
Vistas da exposição
Obras
![Jonas Arrabal #1 (série nami-nokori: resto de ondas), 2026 Series: Série nami-nokori: resto de ondas Betume, nanquim, cera de abelha com tinta à óleo, pastel seco, pastel oleoso, areia, conchas trituradas e outros refugos marinhos [Bitumen, India ink, beeswax with oil paint, dry pastel, oil pastel, sand, crushed shells and other marine debris] 102 x 82 cm [40 1/8 x 32 1/4 in]](https://static-assets.artlogic.net/w_800,h_800,c_limit,f_auto,fl_lossy,q_auto/artlogicstorage/galeriaathena/images/view/dbe0e7f0a964a59dff8994327dce9c2bj/galeriaathena-jonas-arrabal-1-s-rie-nami-nokori-resto-de-ondas-2026.jpg)